Games e Literatura

03/11/2011 14:32

Os jogos que viram romances

 

(Por Andrio JR Santos)

 

Depois de horas e horas de jogo, de tantos lançamentos no mercado, os fãs de games virtuais finalmente podem encontrar uma razão para desligar o vídeo-game: os livros. Esse é o sonho da maioria dos pais e professores em relação aos jovens e ela está mais perto de se tornar real. A razão é simples, uma estratégia comercial de um estúdio de games em conjunto com editoras de livros: transformar jogos em livros para vender aos fãs e aumentar a linha de mercado. Eles possuem capas atraentes, edições bem acabadas, estórias ampliadas para explorar ainda mais o universo do jogo e estão ganhando adeptos vertiginosamente, chegando às listas dos mais vendidos.

 

Lançamento Resident Evil

 

Em sua essência, a estratégia não é nem um pouco nova. Trata-se apenas de associar uma marca já conhecida em outra mídia, para conquistar mais espaço entre o consumidor. Os lançamentos atuais, todavia, subvertem o ciclo usual da indústria do entretenimento.

 

Tradicionalmente, livros de sucesso acabam servindo de inspiração para filmes, e ambos acabam alimentando a indústria de games. O primeiro passo para inverter essa ordem foram os lançamentos de livros baseados em filmes, e que passaram a inundar a lista de Best-Sellers. Um exemplo perfeito é Matrix, cujo roteiro de ficção cientifica foi adaptado para o formato de livro.

 

O crescimento da indústria de vídeo-games já superou Hollywood e a indústria fonográfica em lucros anuais, então os jogos passaram a atrair a atenção de editoras e escritores.  A principal diferença entre os livros que são derivados de filmes e os inspirados em games é a fidelidade do público. Mesmo que livros como O Discurso do Rei tenham feito sucesso nas livrarias, após o filme vencer um Oscar, os consumidores que compraram o livro dificilmente dariam atenção a uma possível continuação. A máquina da publicidade se esgota rápido em torno de um filme e o espectador volta suas atenções para os lançamentos.

 

Todavia, um grande sucesso continuaria a vender por vários anos após seu lançamento, e ainda alavancaria produtos derivados, assim como as próximas versões do jogo. Para aqueles que desejam ver obras mais complexas nas listas de Best-Seller, isso pode ser uma má noticia, entretanto, se depender dos fãs de jogos, dos produtores e editoras, a febre vai durar muito.

 

Procuramos opiniões entre leitores e fãs de games e literatura para saber qual é sua opinião sobre esta nova proposta de mercado. E também, em que sentido uma iniciativa assim acrescenta algo a cultura de "ler" e também a influencia negativamente.

 

“Eu acho uma ótima iniciativa. Os games hoje se assemelham muito mais aos filmes. As produtoras se preocupam com roteiro, muitas vezes dão continuidade às suas criações, além de procurar dar uma boa profundidade aos personagens, eles acabam criando universos inteiros para seus jogos. Os livros são um elemento a mais ‘pra’ esses universos, trazem novos aspectos ou se aprofundam mais nos que já foram apresentados nos games. Muita gente não lê por falta de incentivo, dificuldade em encontrar algo sobre seus gostos ou por se entediar com os clássicos. Uma vez que você goste do jogo, apreciando ou não a leitura, você se sente incitado a conferir o que tem naquela obra ‘pra’ aumentar seu conhecimento sobre o universo daquele game. Isso atrai novos leitores, alguns encontram o prazer na leitura e acabam expandindo seus gostos por ela, tornando-se leitores assíduos, como foi o meu caso. De negativo, só seria o caso se a pessoa ficasse presa apenas a esse gênero de leitura. Mas mesmo assim é melhor ler algo do que não ler nada, então eu acho realmente ótima essa interação entre os games e a literatura.” – argumenta o servidor público municipal Clistenis Henrique do Nascimento, de 26 anos.

 

“Os livros baseados em jogos têm tudo ‘pra’ poder fazer sucesso e incentivar um pouco o hábito da leitura no povo iliterato. Um bom romance, baseado no seu jogo/seriado/filme preferido, pode te dar um conhecimento a mais do mundo de fantasia. Comprei dois livros da Blizzard, falando de Diablo, e um está para chegar. O outro está na lista de coisas para ler. Têm tudo para ser bom, e os fãs do jogo podem se divertir lendo, e rememorando um jogo que fez parte de suas vidas.” – acrescenta o Bacharel em Direito, Murilo Adriano, de 24 anos.

 

Assassin's Creed

 

Dica de Livro: Assassin’s Creed – Renascença (Galera Record, 378 páginas, R$ 32,90) – figura há três semanas na lista dos mais vendidos e é um exemplo bem-sucedido de reaproveitamento. Baseado em uma cultuada série de games para PC, Xbox, já vendeu mais de 28 milhões de exemplares. O romance acompanha a estória de Ezio Auditore de Firenze durante a Renascença. Seguindo parte da estória do jogo, o livro enriquece o enredo com detalhes históricos e também um aprofundamento muito maior em relação aos personagens, e apresenta ainda um encontro do protagonista com os gênios Leonardo da Vinci e Maquiavel. O autor recrutado pelo estúdio de games Anton Gill, um grande historiador da Renascença, optou por assinar a obra com o pseudônimo de Oliver Bowden. Com o sucesso do livro, outros três do mesmo autor deverão chegar logo ao mercado.